É no interior que mora a maior riqueza, por Odair José de Melo

Imagem: Arquivo Pessoal
Carregando...

Imagem: Arquivo Pessoal
Quem olha de fora e vê alguém no fundo de um poço pode imaginar que aquela pessoa caiu, perdeu-se ou foi sendo lentamente vencida pela profundidade. Nem sempre é assim.
Há poços que não são fruto de uma queda, mas de uma construção.
Muitas vezes, aquele que parece estar no fundo apenas começou a cavar porque já não encontrou espaço para permanecer na superfície ao lado daqueles com quem desejava caminhar. Tentou ajudar, participar, dividir esforços, construir em comunhão e contribuir na busca de riquezas que julgava serem comuns.
Mas nem sempre nossas mãos são aceitas. Há momentos em que somos afastados, excluídos, julgados ou até expulsos de ambientes nos quais desejávamos apenas somar.
E é justamente aí que o poço começa a ser cavado.
Aquilo que, aos olhos de muitos, parece isolamento pode se transformar em encontro. Quando já não podemos ajudar a cavar a fonte de alguém, somos impelidos a descobrir onde está a nossa própria água.
E, na solidão da escavação, começamos a encontrar forças que talvez nunca tivéssemos conhecido enquanto dependíamos da aceitação, da companhia ou da oportunidade concedida pelos outros.
Quanto mais fundo se cava, mais silenciosa fica a superfície. E talvez seja nesse silêncio que Deus nos permita ouvir aquilo que o barulho de fora não deixava perceber.
É também na profundidade que a água tende a se revelar mais limpa, mais fresca e mais pura. Assim acontece com a vida. Algumas das experiências que mais nos ferem são justamente aquelas que nos obrigam a descer mais profundamente dentro de nós mesmos, a rever caminhos, descobrir capacidades e reconhecer dons que talvez permanecessem escondidos se tudo tivesse acontecido como desejávamos.
Muitos se tornam maiores justamente depois de serem afastados de lugares em que apenas tentavam servir. Não porque a exclusão seja boa, mas porque Deus pode transformar até aquilo que nos machuca em instrumento de crescimento.
Chega então o momento em que aquele que cavou encontra sua fonte.
Ele sai do poço, mas não abandona o caminho que construiu. Passa a compreender que cada pedra retirada, cada dificuldade enfrentada e cada momento de solidão fizeram parte de uma obra que não podia ser vista por quem permanecia apenas na superfície.
E então percebe algo ainda maior: a verdadeira riqueza nunca esteve apenas naquilo que poderia encontrar no fundo do poço. A riqueza estava também na pessoa em que se transformou enquanto cavava.
Porque a vida é uma dádiva de Deus, e talvez uma de suas maiores bênçãos esteja justamente na capacidade de transformar rejeição em amadurecimento, silêncio em discernimento, solidão em encontro consigo mesmo e profundidade em fonte.
E quando finalmente encontramos essa água, ela já não serve apenas para matar a nossa própria sede.
Torna-se água viva. Água capaz de ser repartida.
Porque quem um dia precisou cavar sozinho aprende que a verdadeira abundância não está apenas em possuir uma fonte, mas em poder oferecer dela a quem também sente sede. (Odair José de Melo é servidor do Tribunal de Justiça (MS), Mestrando em Administração com Ênfase em Políticas Públicas - PROFIAP/UFMS, Bel. Direito e Administração; Pós em Direito Público, Direitos Humanos, Direito da Criança, do Jovem e da Pessoa Idosa).