PRIMEIRO, NÃO FAZER MAL “Primum non nocere”; por Odair José de Melo

Imagem: Arquivo Pessoal
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Imagem: Arquivo Pessoal
Já tentou, por alguns instantes, silenciar o mundo à sua volta? Há uma paz incomum quando as vozes desaparecem e permanecem apenas os movimentos. As pessoas continuam conversando, gesticulando, sorrindo e seguindo seus caminhos, como em uma cena de televisão com o som desligado. Por alguns segundos, deixamos de participar do ruído e passamos simplesmente a contemplar. Talvez seja nesse instante que a vida revele detalhes que a pressa costuma esconder.
O tempo continua avançando, as pessoas passam e os acontecimentos se sucedem diante de nós. Enquanto permanecemos imóveis, percebemos a velocidade de uma corrente que jamais se interrompe. Silenciar o entorno, portanto, pode ser também uma forma de aprender a enxergar. Primeiro percebemos a nós mesmos, nossas inquietações, conquistas, preocupações e desejos. Depois, se tivermos sensibilidade, começamos a perceber aqueles que caminham ao nosso lado.
E talvez seja justamente aí que o silêncio se torne ainda mais necessário. Vivemos tão envolvidos com nossa própria trajetória que facilmente imaginamos que todos seguem no mesmo ritmo. Compartilhamos conversas, brincadeiras, encontros e momentos felizes com pessoas próximas e, por isso, presumimos que elas estejam vivendo com a mesma tranquilidade que aparentamos viver. Mas as aparências podem ocupar o mesmo espaço sem necessariamente compartilhar a mesma realidade.
Enquanto alguém atravessa um período de estabilidade, outro pode estar enfrentando perdas, limitações, incertezas ou simplesmente uma fase em que a vida exige mais esforço. Isso não torna um melhor ou pior que o outro; apenas revela que a vida não distribui seus momentos de maneira igual. As trajetórias podem começar próximas e, silenciosamente, passar a ocupar circunstâncias muito diferentes. O problema surge quando deixamos de perceber essa diferença e tratamos todos como se estivessem no mesmo lugar.
Às vezes cobramos disposição de quem está cansado, entusiasmo de quem está preocupado e presença de quem luta silenciosamente com questões que desconhecemos. Não necessariamente por indiferença, mas porque nem sempre paramos tempo suficiente para realmente observar. E talvez aquela pessoa não espere proteção, piedade ou alguém que resolva sua vida. Pode estar desejando apenas ser percebida, ouvida à sua maneira e reconhecida dentro da realidade que está vivendo. Uma pergunta sincera, alguns minutos de atenção ou uma conversa sem julgamento podem ter um significado que jamais imaginamos.
Há também quem experimente aquilo que, para nós, é apenas um breve exercício de silêncio como parte permanente de sua própria forma de perceber o mundo, numa relação com os sons e com o ambiente que não se dá da mesma maneira que a nossa. Essa constatação amplia ainda mais a reflexão, pois nos lembra de que nem todos observam, sentem ou vivenciam o mesmo espaço a partir das mesmas referências. Talvez a verdadeira atenção comece justamente quando deixamos de usar nossa própria condição como medida para compreender a condição do outro.
Na medicina, há um princípio ético tradicionalmente expresso pela máxima “Primum non nocere”, primeiro, não fazer mal. Embora nascido em outro campo, seu sentido também pode iluminar nossas relações cotidianas. Afastar-nos de nós mesmos por alguns instantes e procurar compreender o outro a partir da realidade que ele vivencia talvez não signifique necessariamente ajudá-lo, mas pode representar algo anterior e igualmente importante: não acrescentar peso àquilo que já desconhecemos que ele carrega.
Ajudar, então, nem sempre significa conduzir alguém ou oferecer respostas. Às vezes, significa apenas reconhecer que existe diante de nós uma experiência diferente da nossa. O silêncio deixa de ser apenas descanso para a mente e se transforma em exercício de percepção e humanidade.
Silenciamos o mundo para perceber a nós mesmos, mas talvez precisemos também silenciar um pouco de nós para perceber verdadeiramente quem está ao lado. E, quem sabe, ao observarmos a vida com mais calma, descubramos que muitos não pedem para ser salvos, apenas para não permanecerem invisíveis. (Odair José de Melo é servidor do Tribunal de Justiça de MS, Mestrando em Administração com Ênfase em Políticas Públicas - PROFIAP/UFMS, Bel. Direito e Administração; Pós em Direito Público, Direitos Humanos, Direito da Criança, do Jovem e da Pessoa Idosa).