De Minha Vida para a Vida, por Odair José de Melo
Uma breve reflexão para aqueles que ainda têm a felicidade de caminhar ao lado de quem amam

Imagem: Arquivo Pessoal
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Uma breve reflexão para aqueles que ainda têm a felicidade de caminhar ao lado de quem amam

Imagem: Arquivo Pessoal
Há algum tempo descobri que a vida possui um estranho costume: ela nunca avisa quando um momento comum está prestes a se transformar em lembrança.
Vivemos como se amanhã estivesse garantido.
Adiamos um abraço porque estamos cansados.
Deixamos um elogio para outro dia.
Silenciamos um "eu te amo" porque imaginamos que a pessoa já saiba.
Corremos tanto atrás da vida que, por vezes, esquecemos de viver justamente ao lado de quem lhe dá sentido.
Com o tempo, compreendi que o amor raramente faz morada nos grandes acontecimentos.
Ele prefere os lugares simples.
Mora na pergunta feita ao final de um dia cansativo.
No café preparado sem que o outro peça.
No perfume escolhido porque alguém um dia disse que gostava daquele aroma.
Na roupa sobre a cama acompanhada da velha pergunta:
"Você acha que ficou bom?"
Mora no silêncio respeitado quando o descanso é necessário.
Na viagem sonhada durante meses.
Na mão estendida sem que exista qualquer obrigação.
E, principalmente, naquele cuidado silencioso que quase nunca recebe aplausos, porque acontece todos os dias.
Talvez seja justamente aí que mora o verdadeiro amor.
Não nas flores.
Não nos presentes.
Nem nas fotografias publicadas para que o mundo veja.
O amor vive naquilo que quase ninguém percebe.
Existe uma estranha beleza quando duas pessoas caminham juntas por muitos anos.
Elas passam a morar uma dentro da outra.
Então, de repente, tudo passa a lembrar alguém.
O perfume que atravessa a rua.
A música que toca distraidamente.
A cadeira vazia na varanda.
A noite que chega.
O nascer do sol.
Há sempre um pedaço da pessoa amada escondido em algum lugar da criação.
E isso faz compreender que amar é muito mais do que sentir.
Amar é cuidar.
É observar.
É lembrar.
É querer que o outro esteja bem, mesmo quando ele sequer percebe que está sendo cuidado.
Não sei quanto tempo Deus permitirá que cada um de nós permaneça por aqui.
Ninguém sabe.
Talvez esse seja um dos maiores atos de sabedoria do Criador.
Se soubéssemos o dia da despedida, talvez deixássemos para amar apenas na véspera.
Por isso Ele nos entrega apenas o hoje.
E o hoje já é suficiente para demonstrarmos tudo aquilo que realmente importa.
Quando chegar o momento de prestar contas da minha caminhada, não espero apresentar riquezas, títulos ou conquistas.
Espero apenas poder dizer:
"Senhor, procurei transformar uma vida em um lugar seguro para outra vida.
Amei com minhas limitações.
Errei muitas vezes.
Mas nunca deixei de tentar cuidar da pessoa que colocaste ao meu lado.
E foi desse amor que nasceram novas vidas, nossas maiores obras."
Se um dia eu partir antes de quem amo, não desejo que as lágrimas sejam maiores que os sorrisos.
Quero que permaneçam as lembranças dos cafés compartilhados, das viagens, das conversas sem importância, das dificuldades vencidas juntos e até das pequenas discussões que ensinaram o valor do perdão.
Porque uma história de amor nunca deve ser lembrada pelo último dia.
Ela merece ser lembrada por todos os dias que a antecederam.
Escrevo estas palavras não para ensinar.
Também não porque tenha descoberto a fórmula do amor.
Escrevo apenas como alguém que, caminhando pela vida, aprendeu uma pequena verdade:
Nenhuma realização será maior do que voltar para casa e encontrar alguém que transforme nossa presença em paz.
Se este texto fizer apenas uma pessoa desligar o telefone por alguns minutos, olhar nos olhos de quem ama, oferecer um abraço demorado ou dizer um sincero "obrigado por caminhar comigo", então estas palavras já terão encontrado seu verdadeiro destino.
Porque o amor não precisa de grandes acontecimentos para permanecer vivo.
Precisa apenas que alguém nunca se esqueça de cuidar.
Enquanto ainda existe tempo. (Odair José de Melo é servidor do Tribunal de Justiça (MS), Mestrando em Administração com Ênfase em Políticas Públicas - PROFIAP/UFMS, Bel. Direito e Administração; Pós em Direito Público, Direitos Humanos, Direito da Criança, do Jovem e da Pessoa Idosa).